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domingo, 10 de janeiro de 2010

Último Recado


 

“Esta não é uma boa hora para fazer inimigos.” 

Voltaire, filósofo francês (1694-1778),

quando o padre da extrema-unção lhe pediu para renegar o demônio

 

In: Revista Bravo (Ano 11 - nº  141)

Coleção de textos organizados por Fabio Cyrino

Livro:  “Talvez Eu não Tenha Vivido em Vão...”

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Entre a República e a Democracia

Sem instituições sólidas e respeitadas, a política de inclusão social e econômica não bastará ao Brasil

José Murilo de Carvalho - O Estado de S.Paulo

Passada a moda da cidadania, veio a da república. Como no primeiro caso, não se sabe bem o que se quer dizer com a segunda palavra. Mas a nova moda sugere um pequeno exercício de interpretação da vida política do País mediante um contraste entre república e democracia.

República é forma de governo, mas também valores e um modo de governar, que é o que me interessa aqui. O coração da república está na própria palavra, coisa pública. Desde sua criação pelos romanos, ela significa igualdade civil e governo voltado para o interesse coletivo. Montesquieu a caracterizou como governo de cidadãos virtuosos. Entre nós, frei Caneca foi quem melhor a formulou.

A democracia, por seu lado, desde as origens gregas, sempre teve a ver com o governo da massa. Esse governo não precisa coincidir com bom governo. Daí que república não é o mesmo que democracia. Havia escravos nas repúblicas romana, norte-americana e latino-americanas. A democracia, na verdade, foi vista até a metade do século 19 como fator de corrupção da república.

Quando a democracia foi domesticada pela representação, tornou-se compatível com a república. Esta passou, então, a poder ser democratizada, seja politicamente pela extensão da participação a todos os cidadãos, seja, mais tarde, socialmente, pela inclusão social de todos. Juntar bom governo e inclusão política e social passou a ser um ideal dos países ocidentais. Cada país perseguiu à sua maneira esse objetivo.

A República proclamada em 1889 no Brasil estava longe de ser democrática. Ela sobreviveu 41 anos sem povo e sem preocupação social. Como avanço democrático trouxe só a extinção do voto censitário, mantendo a exclusão dos analfabetos, que eram 85% da população. Até 1930, a participação eleitoral nas eleições presidenciais não passou de 5% da população. Era uma República patrícia e oligárquica, em que não havia lugar para povo, em que o bem comum era o bem de poucos, embora não faltasse honestidade aos governantes. Ouviram-se logo vozes dizendo que aquela não era a República dos sonhos dos propagandistas. Em nossos termos, dizia-se que era preciso democratizar a República.

Em 1930, houve uma ruptura na República. Além de um violento processo de urbanização, que fez do Brasil, em 50 anos, um país urbano, teve início a democratização política da República com a entrada em cena do povo. A Constituição de 1946 tornou o alistamento e o voto obrigatórios para todos. A participação eleitoral de 5% da população subiu para 70% ao final do século. Os 2,6 milhões de eleitores de 1934 viraram 130 milhões em 2009, dos quais 40 milhões começaram a votar durante a ditadura. A democratização da participação escancarou também o acesso ao fechado clube da elite política. Zé da Silva começou a votar e a ser votado.

Começou também a democratização social da República. O Estado Novo promulgou a CLT e ampliou a legislação social. A ditadura militar ampliou a Previdência. Nos últimos 15 anos, sob a democracia política, a inclusão ampliou-se no campo da educação fundamental e da assistência às camadas mais pobres da população.

Diante de tantos avanços, poder-se-ia concluir que já temos uma República democrática, um bom governo numa sociedade igual e includente.

A conclusão seria precipitada. Passo por cima dos problemas referentes à inclusão social, que têm a ver com a manutenção da desigualdade, a má qualidade da educação fundamental e o restrito alcance do ensino médio. No que tange à prática política, a entrada rápida e massiva do povo no sistema eleitoral foi feita em boa parte durante a ditadura. Mais ainda, o grande déficit educacional e os altos níveis de pobreza ainda prendem a maior parte dos eleitores dentro do círculo de ferro da pobreza. O grau de informação e de liberdade de escolha desse eleitorado é reduzido e ele fica vulnerável a apelos populistas, paternalistas, clientelistas. Seu voto é racional, mas obrigatoriamente preso às necessidades imediatas.

Nossas instituições políticas, sobretudo as representativas, não contam com o respeito dos cidadãos. O fato de o problema não ser só nosso não significa que não constitua uma fraqueza da República. Destaco apenas dois pontos. O primeiro consiste no fato de que nossos políticos, muitos deles formados durante a ditadura, exibem reiterado desrespeito ao cargo e aos dinheiros públicos. Não por acaso, as pesquisas de opinião os colocam sempre nas posições mais baixas (20%) da escala de confiabilidade.

O segundo tem a ver com a relação entre Legislativo e Executivo. Nossa República escolheu ser presidencial. Desde o início, implantou-se um presidencialismo imperial que se sobrepõe ao Legislativo e, no limite, o reduz a mero intermediário entre eleitor e governo. A principal dificuldade dos presidentes consiste em formar maiorias parlamentares. Eles a resolvem negociando favores e benesses.

A igualdade de todos perante a lei, requisito republicano, é ainda letra morta da Constituição. Nosso Judiciário é lento e ineficiente, tornando a lei um instrumento desigual de proteção e punição. Qual é o mensaleiro que foi condenado em última instância? Nossas polícias estão longe de padrões aceitáveis de eficiência e correção funcional, para dizer o mínimo.

Desde 1988 várias propostas de reforma já foram feitas para corrigir as falhas do sistema, sobretudo no campo eleitoral e partidário. Ironicamente, o momento positivo que vivemos tem bloqueado o debate das reformas. O que vemos é um presidente popular, um Executivo hegemônico, um Congresso desmoralizado, partidos que abandonaram programas em troca de um pragmatismo radical voltado para cálculos eleitorais. Tudo isso pode ser democrático, mas não é republicano. A democracia avançou mais rápido do que a República. Pode-se argumentar que essa é nossa originalidade, construir uma democracia sem República. A preocupação com o bom governo, eficiente, transparente e virtuoso, seria, nessa perspectiva, moralismo udenista. Nosso método original de inclusão seria o iberismo estatocêntrico e patrimonialista.

Parece-me, no entanto, que valores e práticas republicanas são essenciais para a consolidação da democracia. Não se trata de udenismo. Trata-se de civismo, de valorização do interesse coletivo e do bom governo, sem os quais não se garante a eficácia e a respeitabilidade das instituições. Sem instituições sólidas e respeitadas, nossa República ibérica permanecerá vulnerável aos ventos das crises econômicas e políticas. Valores e práticas republicanos não são apenas meio, mas também fim.

Acoplar República e democracia é particularmente importante no momento em que o País retoma o velho sonho de grande império. Para realizar esse sonho é preciso respeitabilidade externa, que não se consegue apenas com crescimento econômico e inclusão social. São necessárias também instituições políticas sólidas e padrões internacionais de moralidade pública.

A República precisa da democracia para se legitimar, a democracia precisa da República para se consolidar. O equilíbrio entre as duas está no coração de nosso problema político hoje.

José Murilo de Carvalho, Historiador, membro da Academia Brasileira de Letras e
autor de A Construção da Ordem / Teatro de Sombras (Civilização Brasileira)
ESTADÃO domingo, 27 de dezembro de 2009, 00:10
(Indicação do Prof. Guilherme Neves)

domingo, 24 de maio de 2009

A história da filosofia em 40 filmes

Cinema da Caixa Cultural
Apresenta de 16 de maio de 2009 a 28 de fevereiro de 2010
sábados às 10h30

Caixa Cultural RJ • Cinema 2
Av. Almirante Barroso, 25 • Centro, Rio de Janeiro
Tels.(21) 2544 4080 / 7666 • www.caixacultural.com.br


MODULO 1 - O que é a filosofia?
16.05.09 Rashomon Akira Kurosawa
23.05.09 Persona Ingmar Bergman
30.05.09 Stalker Andrei Tarkovsky
06.06.09 Blow-up Michelangelo Antonioni

MODULO 2 - Questões estéticas
13.06.09 Morte em Veneza Luchino Visconti
20.06.09 Oito e meio Federico Fellini
27.06.09 Cidade dos sonhos David Lynch
04.07.09 Asas do desejo Wim Wenders

MÓDULO 3 - Mito e tragédia
11.07.09 Medéia Pier Paolo Pasolini
18.07.09 Oldboy Chan-wook Park
25.07.09 Ladrões de bicicleta Vittorio De Sica
01.08.09 Crimes e pecados Woody Allen

MÓDULO 4 - O existencialismo
08.08.09 A doce vida Federico Fellini
15.08.09 Estranhos no paraíso Jim Jarmusch
22.08.09 Acossado Jean-Luc Godard
29.08.09 As coisas simples da vida Edward Yang

MÓDULO 5 - O amor em fuga
05.09.09 Aurora F. W. Murnau
12.09.09 A janela indiscreta Alfred Hitchcock
19.09.09 Todas as mulheres do mundo Domingos de Oliveira
26.09.09 O último metrô François Truffaut

MÓDULO 6 - Morte e finitude
03.10.09 Nosferatu, o vampiro da noite Werner Herzog
10.10.09 Hiroshima meu amor Alain Resnais
17.10.09 Paris, Texas Wim Wenders
24.10.09 O sétimo selo Ingmar Bergman

MÓDULO 7 - História e violência
31.10.09 Ricardo III Al Pacino
07.11.09 Macbeth Roman Polanski
14.11.09 Dogville Lars von Trier
21.11.09 Marcas da violência David Cronenberg

MÓDULO 8 - O fascismo hoje
28.11.09 M, o vampiro de Düsseldorf Frizt Lang
05.12.09 Taxi Driver Martin Scorsese
12.12.09 Apocalypse now Francis Ford Coppola
19.12.09 Laranja mecânica Stanley Kubrick

MÓDULO 9 - Cinema e revolução
09.01.10 O anjo exterminador Luis Buñuel
16.01.10 O encouraçado Potemkin Sergei Eisenstein
23.01.10 O homem sem passado Aki Kaurismaki
30.01.10 Nós que nos amávamos tanto Ettora Scola

MÓDULO10 - O cinema nacional e a interpretação do Brasil
06.02.10 São Bernardo Leon Hirzsman
20.02.10 Deus e o diabo na terra do sol Glauber Rocha
27.02.10 Brás Cubas Julio Bressane
28.02.10 Macunaíma Joaquim Pedro de Andrade












terça-feira, 19 de maio de 2009

O POR DE SOL

Quero partir...
Numa praia distante
Longe de tudo
Velho!

Quero sentir a areia fria sob meu corpo
O vento gelado batendo em meu rosto
Aquecido pela barba não feita

Quero ver na minha frente um sol a se por no mar...
Vermelho, vibrante e lento...

Quero estar só no mundo
Esquecido em paz

Quero estar como um jeans rasgado e velho
Aquele que for o mais gostoso e querido
– à vontade –
Sem pressa ou memória
– Esquecido –
Quero não querer nada, não precisar de nada e principalmente não ter nada
Só ser!
– Simples –

Quero beijá-la com amor e respeito
Quando ela, minha doce amiga vier
Terei algo a dizer: Obrigado pelo sorriso que me deste

Quero... não...
Prefiro que o dia termine assim...
Simples e lento
Com um sorriso nos lábios

Herbert Macário


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segunda-feira, 11 de maio de 2009

A Terra e o Homem




O PODER DO MITO - Chefe Seattle - CAMPBELL, Joseph.

CAMPBELL: O Chefe Seattle deu um dos últimos testemunhos orais da ordem moral paleolítica. Por volta de 1852, o governo dos Estados Unidos fez um inquérito sobre a aquisição de terras tribais para os imigrantes que chegavam ao país, e o Chefe Seattle escreveu em resposta uma carta maravilhosa. Essa carta expressa, na verdade, toda a moral da nossa conversa.

“O Presidente, em Washington, informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu, ou a terra? A idéia nos é estranha. Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los? Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que zune. Todos são sagrados na memória e na experiência do meu povo.

Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem, pertencem todos à mesma família.

A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar se de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e memórias na vida do meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.

Os rios são nossos irmãos. Eles saciam nossa sede, conduzem nossas canoas e alimentam nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma bondade que se dedicaria a um irmão.

Se lhes vendermos nossa terra, lembrem se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. O vento, que deu ao nosso avô seu primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas crianças o espírito da vida. Assim, se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina.

Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra. O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo.

Uma coisa sabemos: nosso deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu criador.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens, todos domados? O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pônei arisco e à caça? Será o f im da vida e o início da sobrevivência.

Quando o último pele vermelha desaparecer, junto com sua vastidão selvagem, e a sua memória for apenas a sombra de uma nuvem se movendo sobre a planície... estas praias e estas florestas ainda estarão aí? Alguma coisa do espírito do meu povo ainda restará?

Amamos esta terra como o recém nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhes vendermos nossa terra, amem na como a temos amado. Cuidem dela como temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem na, como Deus nos ama a todos.

Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos.”
CAMPBELL, Joseph. O PODER DO MITO (p.47)

Fotos de Ansel Adams











segunda-feira, 3 de novembro de 2008

POR UM INSTANTE...

Foto: Herbert Macário
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POR UM INSTANTE...

Estou a caminho de uma nova terra
desconhecida e temida
me ensinaram a temê-la

Num instante toda minha vida
Um filme passando rápido
Vejo num piscar
Muito já não lembrava

O que eu era não importa
passou...
é passado
estou numa nova estrada
e à minha frente o desconhecido

Num instante
o medo se transforma
vira curiosidade

A poucos instantes...
Não importa
é passado

Não sou velho
não sou criança
vivi muito
muito mais que muitos

Agora sei
O tempo não passa
Nem mesmo anda
nós sim

O vento rosna ao passar
me ralando como uma parede
agora somos iguais

No passado que passou
fui um tolo
Agora sei as respostas
as certas e as erradas
- sei tudo -

só mais um instante
o chão vem em minha direção

Como pode?
Em poucos instantes...
aprender tanto

Agora sei
Tudo
tudo que existe
não é vivo
não é morto
Vida é uma definição humana
científica
referencial

Não importa
estou quase chegando

Agora sei
quem amei
quem me suportou
Quando fui amado e a pressa...
- como fui cego -

Fui muito tolo
no passado
mas agora é diferente
sei tudo
sou sábio

Falta pouco
meu corpo tocará o chão
num instante

Não importa
agora eu sei
porque faço parte de tudo
tudo que existe
existiu
existirá
é uma coisa só
inclusive eu
com todos os defeitos
sou parte do todo
fiz minha parte

Nesta viagem não controlo nada
nem meu próprio corpo
Aliás...
acho que o perdi em algum lugar

Agora me junto à pedra e ao vento

Agora sei
Por um instante...
estive vivo

Herbert M. Macário
24 nov93

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Foto: Herbert Macário


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Bons Amigos, uma visão Machadiana

Pedi ajuda a minha amiga, companheira e mulher, Lígia, para selecionar algumas frases de Machado de Assis para postar hoje, dia do centenário de sua morte.
Ela descobriu uma poesia e preparou um texto para enviar por e-mail para todos os seus amigos. Tanto o texto de Lígia quanto a poesia são tão bonitos que não resisti, abri a 5ª Porta para ela e Machado.
Denis

"Hoje, 29 de setembro de 2008, é o centenário da morte de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Fundador da Academia Brasileira de Letras e primeiro presidente daquela Casa, sua importância para a literatura nacional é tão grande que 2008 foi instituído como “Ano Nacional de Machado de Assis”, com comemorações por todo o país e, até, pelo mundo afora. Sim, pelo mundo afora, pois Machado é universal!
Como disse Tolstoi, "Se queres ser universal fala da tua aldeia". E foi isso que Machado de Assis fez. Carioca típico, mulato de origem humilde, filho de um operário e uma lavadeira, neto de escravos libertos, autodidata... Machado amou e retratou o Rio de Janeiro em seus romances, contos, peças de teatro. E mesmo sem nunca ter saído desta cidade durante toda sua vida, a literatura de Machado é universal.
E eu, orgulhosa e apaixonada carioca, moradora do Edifício Machado de Assis, na Rua Machado de Assis, próxima ao Largo do Machado (que, aliás, não tem nada a ver com o escritor), não poderia deixar de falar dele neste dia.
Mesmo não sendo leitora voraz de seus livros, é impossível não me identificar com a fina ironia e a irreverência de Machado. Impossível não simpatizar com suas famosas personagens femininas. Iaiá, Helena, Capitu... Mulheres misteriosas, complexas e principalmente, imperfeitas, como eu. Ah, Capitu! “Nosso totem tabu/ A mulher em milhares... Feminino com arte/A traição atraente/Um capítulo à parte/Quase vírus ardente... Capitu ”*
Então, neste dia de Machado, brindo meus amigos com um poema de Assis. Meus amigos próximos e distantes, amigos novos e antigos, amigos que falo todos ou quase todos os dias e aqueles que não tenho muito contato. A todos os queridos, especiais e benditos amigos..."

“BONS AMIGOS

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!”


Um grande beijo
Lígia

“Rio de Machado”, 29/09/08
*citação da música "Capitu" de Luiz Tattit

sábado, 20 de setembro de 2008

Literatura


série contos de fora


Luciano Bonfim





Mais uma lasquinha da literatura do meu amigo poeta Luciano Bonfim lá de Sobral. Dessa vez é do livro Dançando com Sapatos que incomodam, edição de 2002, e pode contar que vem mais. Aliás, quem quiser conhecer mais da escrita do Luciano, pode fazer uma visita no seu Blog que é o lucianobonfim.blogspot.com. Eu como posso, vou visitar ele pessoalmente na semana que vem e a minha próxima postagem vai ser lá de Sobral, terra dos meus e que gosto que faz gosto. Vou tentar apresentar um pouco da cidade e dos seus, pra vocês conhecerem um pouco mais do lado de lá.

Chico Expedito


Acontecimento

Meio-dia: o tempo. O mês: janeiro, setembro...não recordo.
Creio não haver relevância de precisão para o que me proponho contar. Lembro, isto sim, que o sol ardia desde as primeiras horas da manhã. O guarda, me disseram, regava as flores dos canteiros da praça. Já possuía maioridade, e constavam alguns pêlos em meu rosto e tórax. Ela procurava uma blusa lilás, sapatos pretos - pois combina com tudo, dizia, - e um álbum de fotografias. Não sei se encontrou os três, apenas os sapatos ou nenhum deles, esquivo-me. Estava deitado, quase dormindo. Ela beijou a ponta de meus dedos com a sua boca úmida e frugal (carinhosa e lentamente). Meus olhos, frágeis delatores, naufragaram em íntima sensação.
Poucas mães realizam este acontecimento... - Imagino.



Cartaz da peça “As Mulheres Cegas” do Bonfim

LUCIANO BONFIM [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam - Contos[2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético[1992] e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia ; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado[2002] e As Mulheres Cegas[2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências[2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA[desde 1996]; aluno do mestrado em Educação Brasileira[FACED-UFC/2006]
e-mail:
luciano.bonfim@yahoo.com.br

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Foto: Herbert Macário
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O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço ­-
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco- ­
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

Mario Quintana

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sábado, 28 de junho de 2008

PEDRA: A trajetória da imobilidade

Vagava...
Em tempos sem medida
Em espaços sem medida
Levada pelos ventos

Não sei como, algo mudou
Numa espiral
unindo a outros como eu
milhares de bilhões
quase infinitos
Unindo-me a estes, entro em transformação
Lama incandescente, pedra, areia,
pedra, lama,
pedra

O tempo nos esfriou
nos fez um
-Sou pedra-

O tempo age mais uma vez,
faz vida em minha pele
milhares

Não há o que fazer
apenas observo
Algo age
algo me move em torno da luz

Na minha pele a vida se multiplica
milhares se tornam bilhões
quase infinitos
No princípio gostava ...
tudo era novidade
às vezes forçava um movimento aqui e ali
era divertido ver como a vida reagia


Hoje estou cansada
o tempo passa lento ...
- Apenas observo -

Eles surgiram
tentando me compreender e dominar
me cobrem de fios
tiram o azul de meus fluidos
transformam minhas partes
Eles se aglomeram, mas não se tornam um
Não se integram
Fincão agulhas de vidro e aço em minha pele
São tantos, que às vezes me incomodam

Nunca irão me compreender
Não importa
Eles não percebem o quão são frágeis
Não são como eu, estão sempre se movendo
não sabem parar
Não conhecem a imobilidade
O "se deixar levar"
não conhecem o "algo" que nos move
Não há sentido em querer tanto

Não importa
em pouco tempo serei levada
no espaço voltar a vagar
Algo me guiará na liberdade dos ventos
só preciso esperar

Hoje sou imensidão
prefiro ser pó
sou uma poeira muito grande para me soltar da luz
mas falta pouco ...

A vida de minha pele me deu um nome
talvez seja a primeira pedra com nome
Eles são engraçados
às vezes gosto deles
talvez sinta saudades
não importa
a escolha não é minha
Falta pouco tempo
para voltar a vagar


Herbert Macário


quinta-feira, 19 de junho de 2008

Série Contos de Fora

Série Contos de Fora

Luciano Bonfim




É com um orgulho besta que abrimos essa Porta Nordestina pra um cabra da melhor extirpe e cepa. Luciano Bonfim mora em Sobral no Ceará, seu centro do mundo, de onde ele espalha poesia. A criatura se dedica a criação de literatura da melhor qualidade. Olho de cobra, paciência de bode, orelha de cangaceiro... É um homem atento, desconfiado e sensível ao jeito de sua gente. A tragédia e a graça passam por sua escrita. A partir do seu olhar danado e santo ao mesmo tempo, dá autenticidade, mas principalmente universalidade aos seus personagens, são todos nossos irmãos.
O mundo é pequeno e o centro está em todo lugar, pena não se ter acesso fácil a esses artistas, que nem tão preocupados com essa barafunda midiática dos famosos do lado de cá. Às vezes parece que só tem o lado de cá. Tanto se fala e tanto se fala que isso acaba virando verdade e não é. Eles praticam a sua arte que parece que não existe só porque não aparece, mas a arte deles alimenta a alma de qualquer ser vivente do mesmo jeitim que as outras.
Esses contos são da sua última publicação “móbiles”, menos regional que outras também de igual valor. Mostraremos tudo em breve, aos poucos, todas as suas caras.

Chico Expedito





Não existe apenas uma forma de amor & prazer

No curso do tratamento psicanalítico há amplas oportunidades para colher impressões sobre a maneira como os neuróticos se comportam em relação ao amor; ao mesmo tempo, podemos nos lembrar de ter observado ou ouvido falar de comportamento semelhante em pessoas de saúde normal ou mesmo naquelas de qualidades excepcionais..[Contribuições à psicologia do Amor]
Sigmund Freud



Maria Bonita, antes de conhecer Virgulino Ferreira, o Lampião, a quem amou até a morte, foi casada com o sapateiro Pedro.
Cléopatra, rainha do Egito e do coração de Marco Antônio, amou o poder sobre todas as coisas e teve, segundo os relatos, momentos de prazer intenso com os seus magnânimos amantes. Diziam-na belíssima.
Oscar Wilde, que por algum tempo viveu devotadamente à sua esposa, com quem teve dois filhos, crianças para quem escreveu as suas histórias de fadas e encantamentos, amou de profundis a um impetuoso jovem inglês.
Calígula, de quem dizem barbaridades sobre a sua vida e os seus amores, indistintamente amou a homens e mulheres, preferindo, segundo consta, aos rapazes fortes e fogosos.
Niestzche alimentou platônicos amores e nunca teve relacionamentos duradouros; nem parcos amores viveu; na juventude, com uma que nem mesmo soube do nome, teve raras relações sexuais, o suficiente para contrair sífilis e terminar como sabemos.
Schopenhauer nunca morreu de amores pela própria mãe, preferindo dedicar-se a um pequeno cão, a música e a filosofia.
Hitler, algumas vezes acusado de sodomia, empestava de prazer as suas roupas íntimas quando discursava para o seu másculo exército.
Narciso amou a si mesmo e entregou-se ao desespero de não ser correspondido.
Tarzan amava Jane mas nunca se desligou da macaca Chita, a quem conheceu bem antes.
Os cães às vezes se amam na praça e sempre depois do gozo ficam, por algum tempo, engatados um ao outro, sendo motivo de risos para muitos e escândalos para tantos.
Alguns amam e sentem prazer com animais não humanos.
Outros sentem prazer com aqueles que não amam.
Tantos exatamente não amam àqueles com quem dividem a mesma cama. Outros vivem com aqueles que realmente amam e têm prazer. Alguns fingem o prazer que não sentem, e somente assim, têm o prazer que deveras fingem.
Muitos se masturbam todos os dias. Outros não se masturbam nunca nem de vez em quando têm relações sexuais e, no meio da noite, muitas vezes, acordam salvos pela polução.
Existiram Satúrnicas e Bacanais. Troca de casais existe, menáge a trois, também
O campo do amor é vasto, vocês sabem! Infinitas são as zonas de prazer!
Alguns, mesmo assim, nem querem saber de amor e sexo. Outros, todavia, não vêem a hora de tudo isso começar.








Por causa do gato lilás


Tarsila, uma gata siamesa, que conviveu conosco por alguns dias, apaixonou-se pelo ‘gato lilás’ de Aldemir Martins – uma reprodução da tela que possuímos em casa.
Investiu tudo nesta paixão, estudou sobre o artista e sua obra, incomodou a todos com o seu canto lastimoso e noturno, gastou as unhas arranhando os telhados alheios.
Não encontrando retorno algum desta paixão, chegou a cometer o suicídio 6 vezes, até decidir-se a pesquisar intensamente sobre arte contemporânea.
Certa noite, após buscar um diálogo intenso com a eternidade, ainda meio grogue e desolada, saiu para a rua e não mais a vimos.
Soubemos, algum tempo depois, que ela fora atropelada e tornou-se uma efêmera intervenção urbana.

LUCIANO BONFIM [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam - Contos[2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético[1992] e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia ; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado[2002] e As Mulheres Cegas[2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências[2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA[desde 1996]; aluno do mestrado em Educação Brasileira[FACED-UFC/2006].

e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br

sábado, 24 de maio de 2008

O POR DE SOL

Quero partir... velho. Numa praia distante, longe de tudo.
Quero sentir a areia fria sob meu corpo, o vento gelado batendo em meu rosto e este, aquecido pela barba não feita.
Quero a minha frente um sol a se por no mar. Vermelho, vibrante e lento.
Quero estar só no mundo. Esquecido em paz.
Quero estar com um jeans rasgado e velho, como eu. Aquele que for o mais gostoso e querido
- à vontade -
Sem pressa ou memória. Esquecido.
Quero não querer nada, não precisar de nada e principalmente não ter nada. Só ser.
- Simples -
Quando ela, minha doce amiga vier, quero beijá-la com amor e respeito.
Espero... Não! Terei algo a dizer: Obrigado. Obrigado pelo sorriso que me deste.
Prefiro que o dia termine assim: Simples, lento e com um sorriso nos lábios.


Herbert Macário

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Os Meninos


Abro os olhos. Olho para o alto. O sinal ainda está aberto. Acho que a febre está me afetando. O equilíbrio já era. Tô com frio. A multidão ao meu redor tá pingando, mas tô com frio. O relógio do outro lado da rua marca… 13:35, não! 13:25. Mal posso esperar pra chegar na barca e sentar por vinte minutos. O sinal ainda está aberto. O chão suado sob meus pés começa a incomodar. A febre tira o bom humor. Droga! O sinal ainda não fechou. Agora são… 13:25 ! O tempo não passa! Vô tentar esquecer o tempo. Aí ele vai passar. Meninos... Tem dois meninos sentados no meio fio. Na frente da multidão. Eles não ligam pro tempo. O senhor do meu lado resmunga algo, mas não entendo. Acho que é sobre os meninos. Acho que eles têm… uns… 12 anos. É, acho que uns 12. Sábado à tarde, toda cidade tá fugindo do Centro e eles ali, em casa. A Rio Branco galopa freneticamente pra casa e eles ali, sem pressa. Não parecem tristes, talvez não saibam nem o que é casa. Estão sorrindo. Presto atenção no que dizem. O pouco que entendo é palavrão. Falam muito palavrão. Bem… pra mim é palavrão, acho que pra eles é português. O sinal ainda não fechou. A pasta na minha mão também começa a suar. DROGA!! O sinal não fecha! Como será a vida deles? Sol, chuva, televisão muda… brigas… Não deve ser fácil. Mal posso esperar, tô com fome. Tomei café muito cedo. Deve ser por isso que tô com febre. Não se pode bobear com resfriado. Olho o relógio: 13:25. E o sinal ainda não fechou. Eu aqui reclamando do café e os meninos nem devem ter comido hoje. Talvez nem almocem. Ué?! Cadê eles? O sinal nada! Viro os olhos ao redor. Sumiram... Olho pro sinal: finalmente está fechando. O ônibus furou. Esse ainda mata um... Acho que a febre deixa a gente deprimido. Vou comprar um remédio. Até que em fim… o sinal fechou.

Herbert Macário